domingo, 13 de janeiro de 2013

o canto do anu preto




dizem que o canto do anu-preto tem uma aparência de arame.
que o canto do anu-preto tem gosto de ferrugem.
dizem que o canto do anu-preto é como o ribombar de metais pesados puxados em vagões.
que o canto do anu-preto é funéreo como o veludo de suas asas
feitas do mesmo veludo com que forram o interior dos caixões.
dizem que o canto do anu-preto é como o céu quando se desenrola,
barracão de zinco em noite de temporal.
dizem que  o canto do anu-preto é uma coisa aziaga
que prenuncia um morto se ouvido nos arredores da casa.
que o canto do anu-preto é a ferida de sombra presente em todos os boleros.
èl no se puede olvidar.
dizem que o canto do anu-preto gerou os estuporados,
aqueles atravessados pelo seu canto
nunca mais voltaram a ser o que eram antes. 

estuporam-se.
ficam virados.
de dentro pra fora.
mostram as vísceras.

dizem que os olhos do anu-preto são de morte.
e com estes olhos vazados em negro ele me fita.
como quem olha do fundo da urna do mundo ele me fita.
ele tem os olhos gázeos, a carnadura e a plumagem riscadas à giz
e me olha do fundo da urna do mundo
agora
ele me fita.
em 2 de agosto às cinco horas da tarde.
eu,
por
mim


prefiro acreditar que o canto do anu-preto é entalhado com as cores da noite.
na pele da noite.
o canto do anu-preto
esfacela-se no arame das cercas. 
cobre de fuligem as matas, eriça a musculatura dos tímpanos.
 o canto do anu-preto está entrançado à minha pele como o arame farpado às cercas.

 o canto do anu-preto escorre de suas asas, de seu bico,
sua melíflua língua negra flamante língua no fundo da urna da noite na boca do mundo na encruzilhada para o infinito indefinido
o canto do anu-preto em seus olhos, sua cópula, sua cria, sua morte
faz tocarem as folhas do bambuzeiro
 deixa lamúrios na baba das gentes,
 rasgões no  couro das reses,  zinabre nos dentes, ladainhas nas bocas,


 o canto do anu-preto
 é a única coisa que existe sobre a terra.

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