dizem que o canto do
anu-preto tem uma aparência de arame.
que o canto do
anu-preto tem gosto de ferrugem.
dizem que o canto do
anu-preto é como o ribombar de metais pesados puxados em vagões.
que o canto do
anu-preto é funéreo como o veludo de suas asas
feitas do mesmo
veludo com que forram o interior dos caixões.
dizem que o canto do
anu-preto é como o céu quando se desenrola,
barracão de zinco em
noite de temporal.
dizem que o canto do anu-preto é uma coisa aziaga
que prenuncia um
morto se ouvido nos arredores da casa.
que o canto do
anu-preto é a ferida de sombra presente em todos os boleros.
èl no se puede
olvidar.
dizem que o canto do
anu-preto gerou os estuporados,
aqueles atravessados
pelo seu canto
nunca mais voltaram a
ser o que eram antes.
estuporam-se.
ficam virados.
de dentro pra fora.
mostram as vísceras.
dizem que os olhos do
anu-preto são de morte.
e com estes olhos
vazados em negro ele me fita.
como quem olha do
fundo da urna do mundo ele me fita.
ele tem os olhos
gázeos, a carnadura e a plumagem riscadas à giz
e me olha do fundo da
urna do mundo
agora
ele me fita.
em 2 de agosto às
cinco horas da tarde.
eu,
por
mim
prefiro acreditar que
o canto do anu-preto é entalhado com as cores da noite.
na pele da noite.
o canto do anu-preto
esfacela-se no arame
das cercas.
cobre de fuligem as matas, eriça a musculatura dos tímpanos.
cobre de fuligem as matas, eriça a musculatura dos tímpanos.
o canto do anu-preto está entrançado à minha
pele como o arame farpado às cercas.
o canto do anu-preto escorre de suas asas, de
seu bico,
sua melíflua língua
negra flamante língua no fundo da urna da noite na boca do mundo na
encruzilhada para o infinito indefinido
o canto do anu-preto
em seus olhos, sua cópula, sua cria, sua morte
faz tocarem as folhas
do bambuzeiro
deixa lamúrios na baba das gentes,
rasgões no
couro das reses, zinabre nos
dentes, ladainhas nas bocas,
o canto do anu-preto
é a única coisa que existe sobre a terra.
Nenhum comentário:
Postar um comentário