Alex Lindolfo, 2007. Video digital, 4'27". Minduri- MG.
d e s t r o ç o s c o n c e i t u a i s :
d e s t r o ç o s c o n c e i t u a i s :
Avanço e, comigo, nos meus passos, sentada
ao lume, parada e longe, avança a minha mãe. Esperar a morte onde permanece é a
sua forma de caminhar no tempo. E só se pode caminhar no tempo, ainda que os
pés pisem a terra, como os meus parecem pisar, só se pode caminhar no tempo.
José Luís Peixoto, Nenhum
Olhar
E as mães são poços de petróleo nas
palavras dos filhos (...)
Herberto Helder, Fonte – A colher na boca
Herberto Helder, Fonte – A colher na boca
Quando voltar ao Alentejo as cigarras já
terão morrido. Passaram o verão todo a transformar a luz em canto – não sei de
destino mais glorioso. Quem lá encontraremos, pela certa, são aquelas mulheres
envolvidas na sombra de seus lutos, como se a terra lhes tivesse morrido e para
todo o sempre se quedassem órfãs. Não as vemos apenas em Barrancos ou em Castro Laboreiro,
elas estão em toda a parte onde nasça o sol: em Cória ou Catânia, em Mistras ou
Santa Clara del Cobre, em Varchats ou Beni Mellal, porque elas são as Mães. O
olhar esperto ou sonolento, o corpo feito um espeto ou mal podendo com as
carnes, elas são as Mães. A tua; a minha, se não tivesse morrido tão cedo, sem
tempo para que o rosto viesse a ser lavrado pelo vento. Provavelmente estão aí
desde a primeira estrela. E o que elas duram! Feitas de urze ressequida,
parecem imortais. Se o não forem, são pelo menos incorruptíveis, como se
participassem da natureza do fogo. Com mãos friáveis teceram a rede dos nossos
sonhos, alimentaram-nos com a luz coada pela obscuridade dos seus lenços. Às
vezes se encostam à cal dos muros a ver passar os dias, roendo uma côdea ou fazendo
uns carapins para o último dos netos, as entranhas abertas nas palavras que vão
trocando entre si; outras vezes caminham por quelhas e quelhas de pedra solta,
batem a um postigo, pedem lume, umas pedrinhas de sal, agradecem pelas almas de
quem lá têm, voltam ao calor animal da casa, aquecem um migalho de café, regam
as sardinheiras, depois de varrerem o terreiro. Elas são as Mães, essas
mulheres que Goethe pensa estarem fora do tempo e do espaço, anteriores ao Céu
e ao Inferno, assim velhas, assim terrosas, os olhos perdidos e vazios, ou
vivos como brasas assopradas. Solitárias ou inumeráveis, aí as tens na tua
frente, graves, caladas, quase solenes na sua imobilidade, esquecidas de que
foram o primeiro orvalho do homem, a primeira luz. Mas também as podes ver
seguindo por lentas veredas de sombra, as pernas pouco ajudando a vontade,
atrás de uma ou duas cabras, com restos de garbo na cabeça levantada, apesar
das tetas mirradas. Como encontrarão descanso nos caminhos do mundo? Não há
ninguém que as não tenha visto com umas contas nas mãos engelhadas rezando
pelos seus defuntos, rogando pragas a uma vizinha que plantou à roda do curral
mais três pés de couve do que ela, regressando da fonte amaldiçoando os anos
que já não podem com o cântaro, ou debaixo de uma oliveira roubando alguma
azeitona para retalhar. E cheiram a migas de alho, a ranço, a aguardente, mas
também a poejos colhidos nas represas, a manjerico quando é pelo S. João. E aos
domingos lavam a cara e mudam de roupa, e vão buscar à arca um lenço de seda
preta, que também põem nos enterros. E vede como, ao abrir, a arca cheira a
alfazema! Algumas ainda cuidam das sécias que levam pelo cemitério ou vendem
pelas termas, juntamente com um punhado de maçãs amadurecidas no aroma dos
fenos. E conheço uma que passa as horas vigiando as traquinices de um garoto
que tem na testa uma estrelinha de cabrito montês – e que só ela vê, só ela vê.
Elas são as Mães, ignorantes da morte mas
certas da sua ressurreição.
Eugénio de Andrade, As Mães – Vertentes do Olhar


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