segunda-feira, 7 de maio de 2012

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             Fonte: Acervo fotográfico do Centro Cultural Manduri. Secretaria Municipal de Cultura de Minduri - MG.
A imagem (fotografia) do meu passado que escolho para discorrer não é necessariamente minha, no sentido em que nem eu, nem qualquer um de meus familiares estão presentes nela. A fotografia trata de um grupo de homens reunidos numa plataforma de estação ferroviária e foi encontrada junto com outras imagens no acervo de um centro cultural/biblioteca situado no mesmo lugar onde foi registrada, há décadas atrás, a foto em questão. A estação, cuja plataforma passei inúmeras e repetidas vezes em circunstâncias das mais diversas ao longo dos anos, faz com esta imagem esteja ligada à minha história e ao meu passado. Me pergunto, como se fosse um participante da cena fotografada e tivesse compartilhado das mesmas experiências que aqueles homens: Quem são estes na pĺataforma? Desapareceram para sempre como este dia perdido se desintegrou na tessitura do tempo? Para onde foram os comboios que por ali passaram? Com que passos seguiram os homens depois de batida esta foto? Será que titubeantes e ainda queimados pela explosão de luz que registrou seus vestígios voltaram para seus afazeres habituais? Quando e como? Como estava a conjuntura dos astros, a posição dos planetas no céu, os ponteiros no relógio? E se os astros espatifassem nas areias, sua luz iluminaria a abissal noite da memória ou o lugar remoto onde se encontram agora? O que viram estes guarda-chaves, funcionários da ferrovia no instante dessa foto? O que se passou fora do quadro? Com que fio costurar o fluxo dos acontecimentos e lugares? Homens mortos? E se fosse a morte, será que quando acordaram na margem oposta do sono, veio algum barqueiro conduzi-los por águas de pedra lunar? O que viram os seus olhos na cáustica viagem? Se eram homens afogados na história de outros homens, como traçaram seus itinerários? Foram alimentados pelos séculos? Na manhã daquele dia fazia frio? Como era a disposição das mulheres e homens nas janelas? Que cor seriam as casas na beira da ferrovia? Em um interregno inominável entre mundos e atravessando cidades imaginadas a imagem chega até mim. Vem abarcando outras imagens e trazendo sons de épocas pretéritas e futuras, vazando em preto e branco e em cores, decompondo cacofonias estilhaçadas e outros fragmentos a dissolverem-se como num filme que tento em vão recompor. No final da película pode-se ver uma grande plataforma, sem cadeiras e alguém correndo em câmera lenta pelos arredores do mundo. Café frio e cargueiros estancados nas estações, ruas varridas pelo vento, o ventre revirado das casas e seu mobiliário jogado aos cães amarelecidos do tempo. A desolação obscurece todas as letras. Apaga o sentido dos fatos, dos possíveis indícios de seus trajetos. Abandonada nos campos da memória ou envolta em um halo de sono, a imagem é uma frase desintegrando no rádio, na vegetação à margem da rodovia, um fiapo de nuvem desvanecendo em espirais. A imagem pernoita em minha mente. Amanhece. E está gravada como uma rasura na densidade das palavras.

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