A imagem (fotografia) do meu
passado que escolho para discorrer não é necessariamente minha, no
sentido em que nem eu, nem qualquer um de meus familiares estão
presentes nela. A fotografia trata de um grupo de homens reunidos
numa plataforma de estação ferroviária e foi encontrada junto com
outras imagens no acervo de um centro cultural/biblioteca situado no
mesmo lugar onde foi registrada, há décadas atrás, a foto em
questão. A estação, cuja plataforma passei inúmeras e repetidas
vezes em circunstâncias das mais diversas ao longo dos anos, faz com
esta imagem esteja ligada à minha história e ao meu passado. Me
pergunto, como se fosse um participante da cena fotografada e tivesse
compartilhado das mesmas experiências que aqueles homens: Quem são
estes na pĺataforma? Desapareceram para sempre como este dia perdido
se desintegrou na tessitura do tempo? Para onde foram os comboios que
por ali passaram? Com que passos seguiram os homens depois de batida
esta foto? Será que titubeantes e ainda queimados pela explosão de
luz que registrou seus vestígios voltaram para seus afazeres
habituais? Quando e como? Como estava a conjuntura dos astros, a
posição dos planetas no céu, os ponteiros no relógio? E se os
astros espatifassem nas areias, sua luz iluminaria a abissal noite da
memória ou o lugar remoto onde se encontram agora? O que viram estes
guarda-chaves, funcionários da ferrovia no instante dessa foto? O
que se passou fora do quadro? Com que fio costurar o fluxo dos
acontecimentos e lugares? Homens mortos? E se fosse a morte, será
que quando acordaram na margem oposta do sono, veio algum barqueiro
conduzi-los por águas de pedra lunar? O que viram os seus olhos na
cáustica viagem? Se eram homens afogados na história de outros
homens, como traçaram seus itinerários? Foram alimentados pelos
séculos? Na manhã daquele dia fazia frio? Como era a disposição
das mulheres e homens nas janelas? Que cor seriam as casas na beira
da ferrovia? Em um interregno inominável entre mundos e atravessando
cidades imaginadas a imagem chega até mim. Vem abarcando outras
imagens e trazendo sons de épocas pretéritas e futuras, vazando em
preto e branco e em cores, decompondo cacofonias estilhaçadas e
outros fragmentos a dissolverem-se como num filme que tento em vão
recompor. No final da película pode-se ver uma grande plataforma,
sem cadeiras e alguém correndo em câmera lenta pelos arredores do
mundo. Café frio e cargueiros estancados nas estações, ruas
varridas pelo vento, o ventre revirado das casas e seu mobiliário
jogado aos cães amarelecidos do tempo. A desolação obscurece todas
as letras. Apaga o sentido dos fatos, dos possíveis indícios de
seus trajetos. Abandonada nos campos da memória ou envolta em um
halo de sono, a imagem é uma frase desintegrando no rádio, na
vegetação à margem da rodovia, um fiapo de nuvem desvanecendo em
espirais. A imagem pernoita em minha mente. Amanhece. E está
gravada como uma rasura na densidade das palavras.

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